As Mulheres que amaram Jesus
O primeiro livro. Dedicado «às santas velhinhas da minha terra».
1893 — 1950
Nasceu em Alturas do Barroso e morreu na redacção de um jornal em Lisboa. Entre uma coisa e outra escreveu dezoito livros, traduziu Dumas e Victor Hugo, dirigiu jornais e revistas — e deixou em Feras no Povoado o retrato da terra de onde tinha vindo.
Joaquim Gomes Monteiro nasceu às oito da manhã de 5 de junho de 1893, no lugar de Vilarinho Seco, freguesia de Alturas do Barroso, concelho de Boticas. Quatro dias depois foi baptizado na igreja paroquial de Salvador de Eiró, apresentado pela mãe, Mafalda Gomes, que declarou a hora do nascimento e lhe deu o nome de Joaquim. O pai, Joaquim Maria Monteiro Chaves, também de Eiró, era comerciante e industrial com negócios em Ramos, no Rio de Janeiro, onde esteve estabelecido quarenta anos — e só viria a perfilhá-lo em 1947.
Cresceu praticamente sem pai e sem mãe, e foi ele próprio quem o escreveu, sem rodeios, na dedicatória do primeiro livro: «Às santas velhinhas da minha terra que embalaram a minha orfandade orgulhosa». Teve oito irmãos, alguns deles com laços já frouxos em Boticas.
Cedo foi para o Porto, onde frequentou o Liceu e viveu na Quinta Amarela, à Rua Oliveira Monteiro. Aos 19 anos começou no jornalismo: em 1912 dirigia A Voz de Leça e, no ano seguinte, orientava o Notícias de Cantanhede.
A 10 de maio de 1913 assentou praça como voluntário no Regimento de Infantaria n.º 16. A folha de matrícula deixou o retrato mais concreto que dele existe: 1,63 m de altura, barba castanha, uma cicatriz do lado esquerdo do pescoço. Seguiu para Angola, participou nas campanhas do sul da colónia e de lá mandou para O Intransigente uma reportagem sobre a guerra que rebentara na Europa. A caderneta militar também guarda quinze dias de detenção, em abril de 1915, «por se envolver em desordem com um camarada» — que o prefaciador comenta como prova das suas «qualidades de transmontano de rija têmpera».
Regressado a Lisboa em 1915, entrou para o diário A Situação, onde chegou a chefe de redacção, passou por O Século e fixou-se no Diário de Notícias. Dirigiu ainda o jornal Sports e a revista Cine, foi redactor do ABC e da Ilustração, e em 1939 sucedeu a Rocha Martins na direcção do Arquivo Nacional. A partir de 1948 assinou alguns escritos como Sérgio de Montemor.
Morreu a 8 de dezembro de 1950, com 57 anos, na freguesia de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa. Estava no arquivo do jornal quando a morte o surpreendeu.
As datas a laranja são as que mudaram o rumo.
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Entre 1935 e 1940 não publicou um único livro seu — foram os anos em que andou a traduzir Victor Hugo, Alexandre Dumas e Ponson du Terrail. Depois de 1941 e até morrer, quase não houve ano sem livro. Há ainda quatro traduções de Émile Gaboriau sem data conhecida, que não cabem no gráfico.
| Ano | Livros seus | Traduções e prefácios |
|---|---|---|
| 1927 | — | 1 |
| 1929 | — | 1 |
| 1932 | 3 | — |
| 1933 | 1 | — |
| 1934 | 1 | — |
| 1936 | — | 2 |
| 1937 | — | 1 |
| 1938 | — | 1 |
| 1939 | — | 2 |
| 1941 | 4 | — |
| 1942 | 1 | — |
| 1943 | 1 | — |
| 1944 | 3 | — |
| 1945 | 1 | — |
| 1946 | — | 2 |
| 1947 | 1 | 2 |
| 1948 | 1 | — |
| 1950 | 1 | — |
| sem data | — | 4 |
As capas que a biblioteca conseguiu reunir. Falta ainda fotografar as outras.
O primeiro livro. Dedicado «às santas velhinhas da minha terra».
Um livro camiliano, com Camilo e Ana Plácido como protagonistas.
O caso de amor de um amigo com uma donzela russa, que acabou em tragédia em Londres.
A defesa do poeta contra as piadas que lhe atribuíam. Conhecem-se três edições.
Um êxito de livraria, «cheio de curiosas revelações», escreveu a Vida Mundial Ilustrada.
História inglesa contada como romance.
Escrito a quente, no ano em que a guerra acabou.
O último. Saiu em março; em dezembro ele morria.
De Géo Duvic. Uma das muitas traduções que fez para a Romano Torres.
Tudo o que se lhe conhece, pela ordem em que saiu.
Já que não tive mãe que acarinhasse A minha infância trágica e sombria, Acalenta-me até ao desenlace, Ó Mãe Divina de piedosa face, Avé Maria!
Gomes Monteiro · As Mulheres que amaram Jesus, 1932
«Bem hajam as meigas velhinhas de Barroso que contavam histórias de moiras encantadas e, à semelhança das boas fadas da floresta, me tocavam com o fuso imaculado à guisa da varinha de condão, vaticinando-me um futuro risonho que não sei quando chegará.»
Gomes Monteiro · prefácio do mesmo livro
«Lá nesse Brasil distante, que constitui para mim uma deliciosa miragem, poderás avaliar melhor a nobreza rude, brutal, mas sincera dos nossos patrícios barrosãos que ainda nos conhecem.»
Dedicatória de Feras no Povoado à irmã Odete, 1947
«Um paciente investigador, um erudito consciencioso e um infatigável rebuscador de documentos… um livro notável de fadigosa procura da verdade, escrito sem paixão nem sectarismo.»
Diário de Notícias, 26 de março de 1950
Fontes. Paulo Sá Machado, prefácio, notas biográficas e bibliografia da edição comemorativa de Feras no Povoado (Câmara Municipal de Boticas, 2007), donde vêm as datas, a bibliografia e as imagens reproduzidas nesta página. Aí se citam, por sua vez, o Anuário Artístico e Literário de Portugal (1948), o Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses de Barroso da Fonte, o Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses de Adriano da Guerra Andrade, a Vida Mundial Ilustrada (1941 e 1942) e o Diário de Notícias. O desenho é de Eduardo Malta.